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Prefácio do livro “Ideologia de Gênero – Neototalitarismo e a morte da Família”

Apresentamos hoje o valiosíssimo prefácio escrito pelo padre José Eduardo de Oliveira e Silva por ocasião da nova edição do livro do argentino Jorge Scala, “Ideologia de Gênero – Neototalitarismo e a morte da Família”. Por conta de um grande trabalho de síntese, tal escrito nos proporciona profundas afirmações a respeito desta nefasta ideologia. É, de fato, um material de estudo que muito enriquece nosso site:

Há um ano atrás, o termo “ideologia de gênero” era praticamente desconhecido no Brasil. Quando se falava em “gênero”, entendia-se aquilo que normalmente se entende, “gênero masculino” ou “gênero feminino”, “gênero humano” e até “gêneros alimentícios” ou qualquer outro “gênero” de coisas.

De fato, esta terminologia foi construída à custa de muito estudo, de árduas reflexões e, naturalmente, de muito investimento financeiro para, exatamente, não ser entendida. – Como assim? Por que alguém quereria forjar um conceito justamente para não ser entendido?…

Se isto não tem sentido pedagógico, caro leitor, pode ter um grande sentido político, ao menos politicopaticamente falando.

Ao menos é o que testemunha Dale O’Leary, falando sobre a inserção confusa do termo “gênero” no documento da Conferência de Bejing – Pequim em 1995. “Se é verdade que os promotores delegados pró-família não foram obrigados a aceitar uma definição que incluísse ‘papéis construídos socialmente’; de outro lado, os promotores da perspectiva de gênero também não foram obrigados a admitir que existem apenas dois sexos. A indefinição permitiu à burocracia da ONU prosseguir com o seu projeto de impor uma perspectiva de gênero ao mundo, definindo gênero como ‘papéis construídos socialmente’. Os promotores da Agenda de Gênero consideraram a indefinição como uma vitória”1.

A indefinição foi uma vitória! E isso porque, na verdade, os ideólogos de gênero foram hábeis na construção de uma terminologia totalmente esotérica, ou seja, com sentido ambivalente, um para os iniciados e outro para o vulgo. Este foi o segredo de seu sucesso e, paradoxalmente, é o segredo de seu insucesso.

Com efeito, todo o mistério dos adeptos deste macabro tipo de esoterismo não resiste ao levantar-se de uma mísera cortina. Contudo, para chegar a esta, precisa-se percorrer todo o emaranhado labiríntico de desconstruções lógicas que produziram como itinerário traçado rumo à sua nova “pedra filosofal”, que magicamente transfiguraria o universo. Quando são flagrados, porém, descobre-se que “aquilo era só aquilo mesmo”: um grupeto de desatinados querendo dominar o mundo.

Trajados em vestes solenes, munidos de um moralismo inquisitorial, amaneirados de gentilíssima entonação, ornados com um sorriso angelical sob um olhar de ódio escatológico, os ideólogos proferem seus discursos ungidos por um misticismo agigantador, cósmico, divinizante, próprio de avatares, de maitréias de uma Nova Era. É assim que se apresentam contra o homem e a mulher normais, que sempre creram ser aquilo que são, mas que precisariam, para serem libertos da escravidão do ser, emanciparem-se de sua própria identidade para se encontrarem com seu novo eu, composto numa liberdade pura, sem peias, que pretende ser imaterial, anti-corpórea, enquanto se encarcera nos mais corpóreos e materiais prazeres, em nome dos quais agem no instante mesmo em que negam sua possibilidade de existência: o corpo no qual se dão.

O “bezerro de ouro” desta nova antropologia é a “identidade de gênero”, um papel auto-definido pelo indivíduo como uma experiência interna e intangível2, a ser reconhecido pela legislação de todos os países, em substituição da identidade biológico-sexual masculina ou feminina, objetivamente verificável.

O que poucos percebem, porém, é que o aniquilamento da identidade sexual pelo reconhecimento de uma identidade artificialmente construída numa esfera transcorporal comporta o esfacelamento de toda e qualquer identidade, trancando-se-a hermeticamente na indefinível esfera de um subjetivismo inverificável. Obviamente, tal identidade não se poderia representar coletivamente e, portanto, não seria sujeito de direitos. As minorias que se sentem advogadas por esta causa são apenas instrumentos inconscientes, são usadas sem perceberem que, na verdade, militam contra si mesmas.

Desfraldar a bandeira do “gênero” em nome da igualdade é uma insanidade. Afinal de contas, a identidade é o pressuposto da dignidade e, portanto, ninguém pode ser igual sem ser alguém, e quando se entende que ser alguém genericamente é o mesmo que ser ninguém genérico-sexualmente, percebe-se o engodo de querer ser igual pela via da decomposição de si mesmo e do outro. Destruir-se mutuamente a identidade não é ser igual, é “não ser” igualmente.

Por isso, implantar a ideologia de gênero para combater o preconceito seria como usar uma bomba atômica para matar uma formiga! Esta é a primeira consequência social, mas não é a única.

Observando os intentos de se inserir tais perspectivas como diretrizes da educação, percebemos que não se quer apenas combater a repetidamente alegada discriminação, quer-se fabricar um novo tipo de indivíduo, sexualmente amorfo, a ser reconfigurado a esmo. O quanto é antiética tal pretensão, que transforma escolas em laboratórios de dissolução psíquica das crianças, parece-me ser desnecessário ponderar. Estamos diante de um crime!

Entretanto, a mais devastadora consequência é a destruição da capacidade cognitiva em seus próprios fundamentos, pois a autocepção é a base mesma da percepção, que é a gramática mesma do conhecimento humano. Trocando em miúdos, conhecer é perceber, mas o homem começa a fazê-lo percebendo-se a si mesmo.

Concretamente, a ideologia de gênero inverte a ordem real da relação entre o indivíduo e o autoconhecimento.

Dizendo-o em poucas palavras, em sua auto-compreensão, o sujeito tem duas possibilidades: entender que seu corpo é uma legítima expressão de sua identidade ou que este não a exprime adequadamente. Para os ideólogos do gênero a primeira opção é antinatural e a segunda o é efetivamente: ou seja, eu somente sou eu quando não sou eu e me faço diferente de mim mesmo. Quando eu sou apenas eu, na verdade conformei-me comigo mesmo, não fui suficientemente livre para me alforriar de mim mesmo e me decompor; no fundo, convenci-me de que minha autocepção, ao ser confirmada por meu entorno, sou eu mesmo, o que é contrário à minha natureza, visto 

que sou livre para me refazer arbitrariamente. Para eles, alguém achar-se homem ou mulher somente porque tem uma inalterável identidade genética masculina ou feminina é sexismo, isto sim, uma terrível ideologia.

Não é necessário ser muito arguto para se dar conta de que estamos diante de uma enxurrada delirante de contradições, capazes de entorpecer e enlouquecer qualquer um. Imagine tal agressão intelectual aplicada em uma criança!

É evidente que nenhum cidadão minimamente consciente jamais aceitará tal manipulação da infância, nem tampouco a implosão de toda a legislação pelo calculado esvaziamento dos conceitos jurídicos de homem e mulher. Por isso, os ideólogos conseguem seu intento apenas quando não são flagrados a tempo. Mas, quando isso acontece, o ardil se desfaz como bola de sabão.

Por mais incrível que pareça, presenciamos em nossa realidade nacional uma vitória inédita em relação à ideologia de gênero: somos o primeiro país no mundo que, mediante a conscientização popular realizada pelas mídias sociais, conseguiu barrar a entrada da ideologia de gênero na legislação. No ano de 2013, quando muitos afirmavam que aquela era uma luta já por nós perdida, com uma movimentação despretensiosa, simplesmente tendo a iniciativa de explicar às pessoas quais eram as verdadeiras pretensões da agenda de gênero, a onda de despertamento foi espontaneamente chegando cada vez mais longe, criando um verdadeiro debate público a respeito. Era praticamente um prodígio a presença de tantos jovens no parlamento, rejeitando com força, manifestando com clareza a sua indignação, repelindo energicamente a insídia desta infiltração perversa.

Nesta batalha, o livro que o leitor tem entre as mãos desempenhou um papel decisivo. Quando ninguém sabia do que se tratava, a presente obra nos ofereceu um panorama inicial de trabalho, um staff a partir do qual pudemos entrar no debate em posição de vantagem. Nunca seremos suficientemente gratos a Jorge Scala pelo serviço precioso, antes, inestimável, prestado por este seu estudo à causa da defesa da família.

Os ideólogos de gênero comportam-se como aqueles malfeitores do conto de Hans Christian Andersen, “A roupa nova do rei”, que enganaram o imperador, dizendo ter um tecido mágico que apenas os inteligentes poderiam ver… Caindo na trapaça, o soberano fingia vê-lo, eximindo-se de admitir a própria inépcia, e de igual modo toda a coorte, os camareiros que lhe sustentavam a calda invisível, bem como o povo, que simulava ver roupa em seu rei despido, desfilando em procissão. O fingimento coletivo durou até que um menino apontou a nudez do rei; mas, àquela altura, sem perder a majestade, o monarca continuou regiamente desfilando, narcotizando a vergonha da nudez de seu corpo e de sua desinteligência pelo simulacro da glamourização.

É esta psicologia ensandecida a dos ideólogos de gênero. Querem nos despir de nossa identidade e recobrir-nos de ausência, pretendendo convencer-nos de que só os inteligentes enxergam o que não existe. E há quem os creia, e quem jure ver, em não vendo, persuadindo-se histericamente de o ver. E a procissão continua, e a ostentação da vergonha se camufla de glamour. E os malfeitores riem…

Que este precioso trabalho continue sendo como o inocente brado de um menino honesto na rua, e mostre a nudez da desinteligência, insana, despudorada; que cause o rumor necessário, e seja sementeira de outros mais profundos estudos, até que este abuso seja debelado e hajam outros que oportunamente o sejam.

São Paulo, dezembro de 2014.

Pe. Dr. José Eduardo de Oliveira e Silva.

1 Cf. Princípios de Yogyakarta, Preâmbulo, p. 10. Pode ser encontrado em: http://www.clam.org.br/pdf/principios_de_yogyakarta.pdf (consultado em 04.12.2014).

2 Dale O’Leary, The Gender Agenda. Redefining equality, Vital Issues Press, Louisiana 1997, p. 155 (tradução minha).

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